30/11/2008

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

George Orwell (Pseudônimo de Eric Arthur Blair) escreveu um livro em época e local bastante pertubados. Nos anos posteriores à II Guerra Mundial, a Europa passava por uma crise que se instalou após a conquista da paz no continente. Êxodos de populações inteiras, falta de alimentos e produtos manufaturados, além de doenças se alastrando, eram o cenário perfeito para um receio muito maior: o de que todos os problemas que assolavam a região alimentassem o totalitarismo e a ascensão de líderes maníacos, como aconteceu nas décadas de 30 e 40 (dessa vez, na forma do comunismo).
Foi com esse pano de fundo que Orwell escreveu sua distopia, que se passa no fatídico (de certa forma profético) e longíquo ano de 1984. Winston Smith é funcionário do Partido, que controla tudo e todos, através de ferramentas tecnológicas e ideológicas. Censura, alteração de dado, julgamentos forjados e "sumiços" de possíveis dissidentes são algumas das tarefas dos membros da organização. Winston esconde seu ódio ao regime, mas espera que exista outros que tenham idéias semelhantes e, quiçá, sejam organizados e lutem contra ele.
Teletelas controlam os membros da organização, que são observados em todas as tarefas cotidianas. Um mero piscar de olhos é monitorado, o qualquer atitude que indique inquietação contra o sistema pode ser detectada. O Grande Irmão está sempre atento. Figura que, real ou fictícia, agrega em um rosto as característas necessárias para o regime: onisciência e onipresença.
O mundo está em guerra permanente: é dividido entre três grandes potências (Oceania, Eurásia e Lestásia, que se alternam nas alianças sem hesitação) e as áreas sucessivamente reconquistadas. O duplo objetivo é o escoamento da produção de manufaturados e a afirmação do sentimento de patriotismo e o ódio contra os estrangeiros. Produtos não militares, assim como alimentação, são escassos para o povo normal.
Um novo idioma, a "Novilíngua", está em fase avançado de desenvolvimento. Entre seus objetivos, está a eliminação da ambigüidade, da redundância, de modo que as conversas sejam objetivas. Procura-se eliminar qualquer possibilidade de "crimidéia", qualquer sugestão de pensamento contra o partido. A visão religiosa da castidade é levada ao extremo. Sexo com prazer é proibido, e somente a reprodução é permitida. A visão de família deve ser eliminada, de modo que pais são denunciados até pelos filhos.
Vale notar que o controle acontece intensamente sobre os membros do Partido, mas em muito menor grau sobre a prole. Estes são mais controlados com as ferramentas ideológicas. Winston acredita: se há esperança, ela está na prole. Está, porém, consiste em massa manipulada, alheia às injustiças cometidas. Vivem suas rotinas e não representam qualquer perigo ao regime.
É interessante notar a incidência de algumas dessas características em regimes durante a história da segunda metade do século XX até hoje. Stalin, Tito, Fidel, Chávez personificam a caricatura do Grande Irmão. As democracias capitalistas também não fogem das idéias de Orwell. Em sua concepção, sempre haverá classes sociais (alta, média e baixa). Sempre haverá a pirâmide, dentro da qual só mudam as quantidades dentro de cada camada. Sempre haverá também luta de classes. A média dominará a classe alta, que tempos depois se reorganizará e retornará à alta. O poder é um fim por si próprio, não um meio de se garantir direitos e igualdade.
Eu de certa forma me impressionei quando comentei com amigos sobre o livro e descobri que poucos o conheciam: fica então recomendada a leitura. 1984 traz conceitos importantes para que se sedimente o consenso de que a busca pelo poder é constante e traz perigos reais. Quem está fora dele deve fiscalizar, demandar direitos e participar, não permitindo que a alienação se espalhe e que líderes que busquem o poder pelo poder surjam.

3 comentários:

ZzzZzzzZ disse...

Bem legal a sua resenha sobre livro. Eu particularmente nunca li este livro 1984, o mais irônico é saber que muitas pessoas assistem BB e não sabem de onde veio a idéia. George Orwell também é conhecido pela "REvolução dos Bixos" , que na minha opinião é brilhante! vale a pena conferir!

Abraçoss!

Anônimo disse...

"Entre seus objetivos, está a eliminação da ambigüidade, da redundância, de modo que as conversas sejam objetivas."
Ambiguidade eliminada? E o duplipensar? haha... não li a resenha inteira, preciso dormir...

Murilo de Sousa disse...

ahhh, mas o duplipensar eh coisa pro Partido entender, e a Novilíngua quer eliminar a ambiguidade, creio eu, principalmente na prole... bj loira